História do Teatro Municipal

Publicado em 23 de Julho de 2020 às 13:12


História do Teatro Municipal

O Teatro Municipal de São João del Rei é, sem sombra de dúvida, por sua beleza e tradição, um dos mais importantes e admirados Teatros do interior Brasileiro

Situado bem no coração da cidade, à Avenida Hermílio Alves, nº 170, em seu aspecto atual apresenta importante fachada em estilo greco-romano, a qual se atinge por meio de espaçosa escadaria, guarnecia, em abos os lados, de artísticas balaustradas semicirculares. Essa fachada ostenta no térreo três majestosas portas romanas, sobre cada uma das quais se esculpe um rosto alegórico, representando, respectivamente o drama, a comédia e a tragédia. A cada extremidade, situam-se janelas retangulares que se postam por detrás de rica balaustrada.  A janela central se separa das demais, por uma belíssima coluna grega de cada lado, sendo, que, a cada extremo alteiam-se duas colunas geminadas, também no mesmo estilo grego. Para fora das colunas, mostram as paredes, em cada lado, primoroso rendilhado, ornamental, como primorosíssima é a ornamentação, em forma de escudos, encima cada um dos janelões. Por sobre os referidos rendilhados, inscrevem-se os nomes dos conspícuos artistas: Alvarenga Peixoto, Severiano de Rresende, Rodrigues de Melo, Ribeiro Bastos e Cláudio Manoel.

Otímpano do frontão, com 8 m e 50 cm de comprimento e 1 m e 50 cm de altura, foi esculpido em alto relevo com figuras alegóricas referentes a música e ao drama, pelo escultor Hugo Taddei e pelo decorador José Baia. No centro, ladeado por figuras mitológicas, aparece em relevo o brasão de São João del-Rei. Coroando o monumental edifício, vemos estátuas, com 2m e 20 cm de altura, representando Apolo, em pé ladeado por figuras alusivas à Poesia e à música, estas sentadas, obra do escultor Waldemar Rodgonoff.

Em cada extremo da cumieira da 2ª parte do edifício está representada uma grande lira. Artísticas luminárias se distribuem pela fachada e pelas balaustradas da escadaria externa. Transposta a entrada, penetrasse em amplo saguão, provido de recursos para o conforto dos freqüentadores, onde estão afixadas placas de homenagem a pessoas que marcaram sua presença no Teatro, como, entre outras, a referente do falecido Said Halle Najm modelar funcionário da casa. De cada lado desse saguão, parte uma escadaria que conduz a uma ampla sala de espera, a partir da qual se alcançam os camarotes e galerias. Nessa sala, pelos vitrais podem ser admirados. Cada uma dessas salas de espera mede aproximadamente 10m e 60cm por 4m e 70cm.

No corpo propriamente dito do teatro temos, no térreo, quatrocentas e oito poltronas estofadas e, no pavimento superior, cento e noventa e seus poltronas em madeira, na denominada galeria, bem como dez camarotes, guarnecidos de belíssima cadeiras, comportando estes, no total, cinqüenta lugares. Todo o forro apresenta ornamentação em relevo. Junto ao palco, encontra-se confortável fosso, destinado à orquestra, rodeado de trabalho gradil em madeira. A platéia mede 16m e 20cm de comprimento 15m e 15cm de largura. O fosso da orquestra tem cerca de 34 m 2 . O palco, guarnecido de cortina de veludo de cor vinho, apresenta as seguintes dimensões: 8m e 30cm de boca, 12m e 20cm de largura, incluindo-se as coxias, 11m de profundidade, 11m de altura até o urdimento e 15m até o telhado, sendo pois, suficientemente amplo e dotado dos recursos inerentes a sua função. Na parte posterior, encontram-se os compartimentos de abrigo dos pianos. Transposto o palco no mesmo nível, existem três camarins e, em pavimento superior encontram-se três apartamentos e sete quartos com capacidade total para abrigar dezoito artistas itinerantes.

É bem verdade que na quase tricentenária história de cultural de São João del-Rei outros teatros precederam o Teatro Municipal, todos, entretanto, já desaparecidos. Assim, colocados cronologicamente, tivemos em 1782 a Casa da Ópera; em 1828 surgia um teatrinho particular; em 1833 o teatrinho junto à Igreja de São Francisco; em 1839, o afamado Teatro São Joanense, da Rua da Prata; em 1878, a sala da Filarmônica São Joanense; em 1883 o Teatrino da Rua Resende Costa e, finalmente, em 1884, o Teatrinho da Rua Direita.

Após o desabamento do belo e confortável Teatro São Joanense a 7 de dezembro de 1889, sentiu a municipalidade a premente necessidade de construir um novo Teatro, que seria o Teatro Municipal. Assim, a 7 de agosto de 1890, um terreno adquirido da Santa Casa de Misericórdia, por seis contos de réis, próximo ao Córrego do Lenheiro, começou a ser preparado para receber o novo edifício. A 5 de setembro de 1890, a Gazeta Mineira, em seu número 317, noticiava que a Intendência Municipal constituíra uma comissão composta de todos os seus membros e dos senhores Hermílio Alves, Dr. Cyriaco do Amaral e Antônio Homem de Almeida para promoverem (pelos melhores meios o levantamento do nosso Theatro).

A 09/05/1891 foram aprovadas as plantas e orçamentos organizados pelo Dr. Pedro Formagui. A 10 de junho de 1891 o presidente em exercício da Intendência Municipal, Dr. João Salustiano Moreira Mourão, publica a abertura do recebimento de propostas para a construção. A obra do edifício foi orçada em 43.041$925, aceitas as propostas dos Sra. José de Barros Azevedo e Marçal José Rosa, por menos 10% do orçamento. Os serviços preliminares se iniciaram a 20/07/1891. A 1º de agosto de 1891, a Gazeta Mineira, de nº 352, publica a lista dos oitenta e três subscritores do empréstimo para a construção do Theatro.

Finalmente o grande acontecimento: no dia 2 de fevereiro de 1893, foi inaugurado o tão desejado Theatro Municipal, orgulho da administração de Antônio Francisco da Rocha. Ergue-se o pano ao som do Hino Nacional. A seguir, apresenta-se a Grande Companhia Dramática, dirigida pelo ator Phebo, com a participação de renomados artistas destacando-se os imortais Furtado Coelho e Apolônia Pinto. A peça encenada foi (Dalila) de Octavio Feuillet, em quatro atos e seis quadros. Os cenários e o pano de boca, pintados pelo cenógrafo Frederico de Barros, representavam uma vista do edifício do Theatro e de um dos mais belos trechos da cidade. O recinto se achava lindamente ornamentado, com os camarotes ostentado escudos em honra às pessoas que contribuíram para a construção.

Na semana seguinte, a 09/02/1893, abriu-se o Teatro para a apresentação do drama (Suplício de uma Mulher) e da opereta (Ó Cara Linda), com a participação da Orquestra Ribeiro Bastos. Outras peças foram encenadas nas semanas seguintes. Para que abusos não fossem cometidos, a 04/02/1899, Dr. Joaquim Domingos Leite Castro, agente executivo Municipal sanciona a resolução nº 195, que proíbe a cessão do Teatro Municipal para a realização de (bailes mascarados ou que ofendam a moral pública).

A 14/11/1908 a Firma Faleiro e Cia. contrata a Câmara o arrendamento do Teatro Municipal, ficando a empresa responsável pela conservação do prédio, sendo que os irmãos Faleiro foram os pioneiros na introdução do cinema em São João del Rei, precedidos apenas pelo apresentador cinematográfico ambulante Francisco Augusto de Ulhoa Cintra.

A data de 1909 inscrita na antiga fachada do Teatro Municipal indica que este passou por melhoramentos, sendo agente executivo municipal Antônio Gonçalves Coelho. À direita de quem se colocava de frente para o prédio, destacava-se um pavilhão do mesmo, que se estendia mais à frente da fachada principal e, à esquerda, no extremo oposto, extensa escadaria conduzia diretamente às galerias. Dominavam toda a fachada amplos janelões envidraçados, guarnecidos de sacadas e grades de metal. Junto à rua, grades e portões gradeados se colocavam como sentinelas do edifício. Internamente, além da platéia, apresentavam-se dois pavimentos de galerias, ambas semicirculares e ricamente guarnecidas de grades, contendo a primeira, primitivamente um camarote central. As galerias se assentavam sobre colunas artisticamente retorcidas, mais tarde substituídas.

Em 1913 o Teatro Municipal estava em obras, quando os irmãos Faleiro inauguraram a 15 de agosto o primitivo pavilhão Faleiro, construção provisória, com coberturas de folhas de zinco, para suprir a falta do referido Teatro. No dia 12 de maio de 1922, Basílio Magalhães, Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal, aprova a planta de autoria do Sr. Gabriel Galante e do Engenheiro Dr. Haroldo Paranhos, com modificações realizadas pelo Engenheiro Dr. Archimedes Memória, relativa à nova fachada do Teatro Municipal. As despesas foram orçadas em 79.460$00. O aspecto dessa nova fachada corresponde ao descrito no início deste registro. A inauguração do prédio reformado se deu no dia 13 de janeiro de 1925, estando o Theatro então arrendado à Empresa Castanheira e Machado. Presidiu a inauguração o ilustre Dr. Basílio de Magalhães, tendo usado a palavra os Srs. Custódio Batista de Castro, José Lopes Sobrinho e Castanheira Filho. Abrilhantou a solenidade, iniciada às 18h, a Banda de Música do 11º Regimento de Infantaria. Na mesma noite, a Companhia Clara Weiss encenou a opereta (Dança das Libélulas), sob a direção do maestro Ignácio Stabile.

A 10/11/1941 foi o Theatro Municipal mais uma vez reinaugurado, sendo Prefeito Dr. Antônio Viegas, sendo sido arrendado por vinte anos à Empresa cinematográfica F. Cupelo & Cia, ocasião em que, após solenidades religiosas e cívicas, com a participação da Banda de Música do 11º Regimento de Infantaria, realizou-se memorável concerto, a cargo da Sociedade de Concertos Sinfônicos.

Novas reformas levaram o Theatro a outra reinauguração no ano de 1970, quando o Prefeito Dr. Milton de Resende Viegas. Houve o embelezamento interno, quando foi, entre outros procedimentos, afixado o belo lustre central, bem como reformaram-se os camarins e se construíram os já citados apartamentos.

No dia 12 de agosto de 1984, reinaugura-se novamente o Teatro, na administração Dr. Cid Valério, quando se procedeu à reforma da estrutura do piso do palco, a ampliação dos bastidores, e à substituição das poltronas de madeira da platéia, por estofadas.

Em sua longa história, o Teatro Municipal foi palco de grandes acontecimentos artísticos, tendo acolhido respeitáveis nomes individuais e notáveis grupos do Mundo das Artes.

É relevante a referência à inauguração dos pianos de cauda adquiridos para o Teatro: No dia 03 de abril de 1935, a consagrada pianista são-joanense Maria das Mercês Mourão Calazans, radicada no Rio de Janeiro, inaugura o piano de meia cauda francês, marca Érard. Além de vários solos, a pianista executou, secundada pela orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos, sob a regência do Maestro João Cavalcante, o primeiro movimento de Concerto em lá menor de Grieg.

A 02 de outubro de 1977, o pianista, natural do Rio de Janeiro e radicado em São João del Rei, André Luís Pires, inaugura o piano japonês Yamaha, de cauda inteira, executando o Rondó em Si Bemol de Beethoven, acompanhado pela Camerata de Bonn (Alemanha). A propósito desse piano Yamaha, adquirido pelo Prefeito Octávio de Almeida Neves, cumpre ressaltar que ele é considerado, na opinião de diversos especialistas, um dos melhores existentes no Brasil.

A seguir, uma relação de artistas vários, bem como grupos, que, entre muitos outros, já atuaram em nosso Theatro Municipal, além dos já citados. Para evitar injustiças e omissões, não serão mencionados aqui os inúmeros artistas residentes nesta cidade. Assim, apontemos:

Na arte teatral, Ismênia dos Santos, Franco Cardinalli, Caetano Alves, Medina, Ferreira de Souza, Bolognesi, Itália Fausta, Nina Sanzi, Jaime Costa, Palmeirim, Prócopio Ferreira, Vicente Celestino com sua companhia de operetas, Eva Tudor, Jota D'Angelo, Mauro Mendonça, Rosa Maria Murtinho, Henriqueta Brieba, etc. Representando os valorosos artistas são-joanenses, citemos Marcondes Neves, que, além de ator, trabalhou no teatro até o fim de sua vida, ali lhe sendo conferida placa comemorativa. Justo também lembrar o nome de Antônio Guerra e do Dr. José das Chagas Viegas pelo muito que contribuíram para o Teatro em São João del-Rei. Dentre os inúmeros grupos teatrais são-joanenses, citemos, como representantes de todos eles, o Clube Teatral Artur Azevedo e o TÚNIS (Teatro Universitário São-Joanense).

Imenso é o número de peças teatrais apresentadas no palco do Teatro Municipal, ao longo de sua história. Considerando apenas aquelas encenadas por grupos são-joanenses, entre inúmeras, podemos citar: (Uma República de Estudantes), (São Gaudêncio Mártir), (Tio Bernardo), (Justiça de Pai), (Nobreza do Artista), (Os dois sargentos), (Rosas de Nossa Senhora), (Médico à Força), (Tim-tim por tim-tim), (o Dote), ( São João del Rei), ( Os Milagres de Santo Antônio), (As Duas Órfãs), (Primerose), (O Mártir do Calvário), (Irene), (A Morte Civil), (A Morgadinha de Val-Flor), (Tosca), (A Filha do Marinheiro), (Oh, Oh, Oh, Minas Gerais), (A Casa de Bernarda Alba), (Morte e Vida Severina), (Marat-Sade), ( Auto da Compadecida), (Pedreira das Almas), (O Santo Inquérito), sem esquecer as operetas mencionadas na campo da Música.

Na Música, entre muitos outros interpretes, citem-se os pianistas Arnaldo Estrella, Yara Bernette, Antônio Guedes Barbosa, Isabel Mourão, Anna Stella Schic, Jacques Klein, Arthur Moreira Lima, Caio Pagano, Magdalena Tagliaferro, Arnaldo Cohen, Luiz Henrique Senesi, Nelson Freire (aos seis anos de idade), Berenice Menegale, Eduardo Hazan e o são-joanense Homero de Magalhães; os violonistas são-joanense Japhet Maria da Conceição e Ernane Pequeno; os violoncelistas Santiago Sabino de Carvalho (são-joanense radicado em Londres) e Márcio Carneiro; os violinistas Marcos Llerena e Fábio Zenono; cantores vários como Eliane Sampaio, Sandra Lobato, Ruth Staerke, André Lorieri, Paulo Roberto Sampaio e Wilson Simão; os maestros Fernand Jouteux e Ernani Aguiar, os consagrados Interpretes nos cursos latino-americanos de Música contemporânea, organizados pelo são-joanense José Maria Neves, doutor em Musicologia e regente de nossa tradicional orquestra Ribeiro Bastos, bem como os famosos artistas atuantes nos vários cursos internacionais férias aqui promovidos. Também na música, as Companhias de Ballet, as renomadas orquestras, como a já citada Camerata de Bonn, a Camerata de Túbingen (também alemã), a Orchestre des Jeunes de Fribourg (Suíça), além de excelentes orquestras nacionais.

Merecem destaque especial as diversas óperas apresentadas, quer encenadas parcialmente como a (Aída) de Verdi (exclusivamente com elementos são-joanenses), (Sansão e Dalila) de Saint-Sãens, (IL Guarany), de Carlos Gomes, (Cavalleria Rusticana) de Mascagni e (O Barbeiro de Sevillha) de Rossini, quer completas como (La Travista) e (Rigoletto), de Verdi, (L'amigo Fritz, de Mascagni, (Dom Pascoale), de Donizetti, (Tosca) de Puccini, (Dido e Eneas), de Purcel, etc. Entre as operetas, destacam-se: (A Viúva Alegre), (Sonho de Valsa), (A Princesa das Czardas) e (O Conde de Luxemburgo), bem como a Gueixa e o Barão Cigano, estas duas dirigidas pelo fundador de nossa Sociedade de Concertos Sinfônicos, maestro João Cavalcante, já com seu grupo de Belo Horizonte.

Ressalta-se a atuação em nosso Teatro dos valores musicais de nossa terra, que tantas e tantas vezes se apresentaram em nossa principal casa de espetáculos, sendo justo apontar, representando todos os demais no campo da Música, a pianista Mercês Bini Couto, o Maestro Dr. Pedro de Souza e a Sociedade de Concertos Sinfônicos, o ultimo também regente de nossa bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense, recentemente, falecido.

É evidente que incontáveis nomes foram omitidos mas que, aqui nas memórias e nos corações, que, com sua arte, souberam conquistar.

Finalizando, apesar de toda a beleza e glória nosso teatro municipal está enfermo. Anseia ele por outra reinauguração após essa pandemia. Esperamos vê-lo novamente no esplendor de sua vitalidade, podendo dar a São João del-Rei e dela receber, com reciprocidade, tudo aquilo que ambos tão sobejamente merecem.

Texto de Abgar Campos Tirado

Fontes de Consulta:
Antônio Guerra , Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1917 a 1967
Sebastião de Oliveira Cintra , Efemérides de São João del-Rei
Augusto Viegas , Notícia de São João del-Rei

Fotografia: Cleber Moraes e Marcelo Melo