As lendas da cidade de São João del Rei

Publicado em 26 de Agosto de 2020 às 18:58


As lendas da cidade de São João del Rei

O que não falta ao interior do Estado de Minas Gerais são histórias de assombrações e lendas que atravessaram gerações. Aliás, as próprias crianças já nascem envolvidas com esses casos. Alguns pais acreditam, por exemplo, que devem enterrar o cordão umbilical dos filhos para que ratos não o comam. Caso contrário, a pessoa pode virar um ladrão quando crescer. Também vêm das pequenas cidades mineiras e de suas fazendas coloniais, mitos de fantasmas que enchem a imaginação das pessoas. Não é difícil encontrar um morador que não tenha presenciado ou ouvido falar de barulhos de correntes, choro de escravos ou de passos de pessoas durante as madrugadas.


A cidade de São João del-Rei é um bom exemplo disso, pois como dissemos anteriormente suas lendas vêm sendo mantidas vivas no imaginário de turistas e moradores da região através do espetáculo "Lendas São Joanenses". É justamente com a ajuda deles que iremos contá-las a partir desse momento.

O Segredo

No pequeno sobrado em que funcionou, há tempos, um departamento do Ministério da Agricultura, situado atrás da Igreja de São Gonçalo Garcia, residia um opulento capitalista, de nome Rogério, casado com uma senhora cuja perversidade era o terror da mísera escravaria às suas ordens. Entre os escravos havia uma jovem mulata chamada Julieta, cuja beleza e juventude alvoraçaram, logo que chegou, os sentidos do senhor, homem forte, másculo e ainda relativamente moço.

A maneira leve e suave pela qual, desde o primeiro dia, começou a tratar a nova escrava, despertou fortes ciúmes por parte de sua esposa, dona Jacinta, que exigiu o mais depressa possível a venda da moça. Rogério, é claro, não concordou, visto as razões secretas que tinha para mantê-la em seu poder.


Suspeitando do marido, dona Jacinta passou a espioná-lo, habilmente, e foi sem grande dificuldade que ficou sabendo que Julieta era algo mais do que uma simples escrava... Porém, evitou de comentar sobre o assunto e tornou-se até mais carinhosa com o marido, a quem, dali por diante, deixou de falar na venda de Julieta.


Cerca de um mês depois foi comemorado o aniversário de Rogério. A esposa, dona Jacinta, decidiu fazer ela mesma o jantar. Aliás, não foi apenas um jantar um pouco mais farto, que dona Jacinta apresentou naquele dia, mas um verdadeiro banquete. Era grande a variedade de pratos que enchiam a mesa, mas, entre todos, aquele de que Rogério mais gostou foi um de picadinho de coração, muito de seu agrado, que somente ele comeu, e repetiu mais de uma vez, deliciado.


Algumas horas após o jantar, ele chamou por Julieta. Aliás, a chamou-a em voz alta, mas não obteve resposta. Estaria no quintal? Gritou da varanda, com mais força, mas ela não respondia. Ele até ordenou que a procurassem, mas ninguém a encontrou.


Desconfiado de que a mulher a tivesse vendido contra suas ordens, interpelou-a ardilosamente:


Será que a mandaste a alguma parte, Jacinta?
A Julieta? - perguntou Jacinta como se de nada soubesse.
Sim, a Julieta! - exclamou Rogério, já de mau humor.
Bem, o coração tu o jantaste... O resto não sei... pergunta ao Bento... - respondeu ironicamente, Jacinta.


Tudo fora feito em segredo: o assassinato, a abertura do peito, a retirada do coração com a desgraçada ainda viva, fortemente amarrada e com a boca entupida de pano, para que não ouvissem seus gritos. Em seguida, o enterro ali mesmo, onde se consumara o hediondo crime.

Os escravos sabiam que Julieta tinha ido, durante o dia, com a senhora e o Bento, escravo perverso, que aplicava os castigos em um terreno próximo da cisterna. Depois disso, nunca mais a viram. Curiosos, perguntaram ao odiado companheiro e algoz, o quê os três tinham ido fazer no lugar de onde não mais voltara a bela escrava.


– Ali há um segredo... Não posso dizer... Pagaria com a vida... - respondeu Bento.


E o local da tragédia ficou sendo, para os escravos, o "Segredo", denominação esta que, mais tarde, se estendeu aos arredores, e até hoje se conserva.